Em meio às celebrações de São João, muitas vezes marcadas por representações caricatas da vida no campo, um aspecto costuma passar despercebido: a roça não é apenas um espaço de produção de alimentos, mas também um território de aprendizagem, memória e construção de identidades. Na Amazônia paraense, os conhecimentos sobre o plantio, o manejo da terra, os ciclos da natureza e a vida comunitária continuam sendo transmitidos entre gerações, mantendo vivas práticas culturais que ajudam a sustentar comunidades inteiras.
Essa realidade é tema do artigo "A roça como um território de aprendizado e resistência cultural em Concórdia do Pará/Amazônia", publicado recentemente na Revista Interseção e assinado pela pesquisadora Shirlei Rodrigues de Oliveira e pela professora da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Maria das Graças da Silva. O estudo investigou os saberes e as vivências de moradores da comunidade Santa Maria V, em Concórdia do Pará, revelando como o trabalho na roça se constitui também como um espaço educativo.
A pesquisa demonstra que os conhecimentos construídos no cotidiano do campo são transmitidos principalmente por meio da convivência familiar, da observação, da oralidade e da prática. Aprender o momento adequado para plantar, compreender os ciclos das culturas agrícolas, manejar a terra ou produzir farinha são experiências que vão muito além do trabalho manual. São formas de educação construídas na relação entre as pessoas, a comunidade e a natureza.
A investigação surgiu durante o período pós-pandemia, a partir da experiência da primeira autora, natural da comunidade pesquisada. Durante as orientações acadêmicas no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED), do Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) da Uepa, Oliveira propôs investigar as práticas da roça vivenciadas por sua própria família e pelos moradores da comunidade Santa Maria V. A professora Maria das Graças orientou a pesquisa, contribuindo com sua trajetória de estudos sobre processos educativos em ambientes não escolares e saberes culturais da Amazônia.
Coautora do artigo, Maria das Graças é professora do PPGED e há quase duas décadas pesquisa processos educativos construídos em comunidades amazônicas, especialmente em territórios tradicionais. Segundo ela, o artigo integra uma linha de investigação consolidada no programa, voltada ao mapeamento dos saberes produzidos em diferentes contextos de trabalho e cultura na Amazônia. "Nós temos nos dedicado a elaborar cartografias desses saberes produzidos por outros sujeitos. Reconhecemos esses ambientes de trabalho como ambientes educativos, onde são produzidos saberes, circulam conhecimentos e se conformam processos educativos", explica a pesquisadora.
Além da pedagogia da roça, as pesquisas desenvolvidas pelo grupo investigam outras formas de aprendizagem presentes em atividades tradicionais da Amazônia, como a pesca artesanal, a coleta do açaí, a carpintaria naval, a produção de ervas medicinais e a pajelança. Em comum, esses estudos reconhecem homens e mulheres do campo, das águas e das florestas como sujeitos produtores de conhecimento, cujos saberes são construídos na experiência cotidiana e transmitidos entre gerações.
Para a professora, um dos principais desafios é fazer com que esses conhecimentos sejam reconhecidos também pelo sistema educacional. Segundo ela, muitas crianças e adolescentes chegam à escola trazendo saberes construídos em seus territórios, mas esses conhecimentos nem sempre encontram espaço nos currículos escolares. "Ao desenvolver um trabalho voltado para a produção da existência, esses sujeitos também desenvolvem pedagogias voltadas para a formação humana. Eles ensinam por outras estratégias pedagógicas, como a observação e a oralidade", afirma.
O mês de junho reforça a importância dessa reflexão. Muitas das tradições juninas presentes na Amazônia possuem raízes profundas na vida rural. Alimentos como milho, mandioca e seus derivados, protagonistas das mesas durante o período junino, carregam histórias de trabalho coletivo, transmissão de conhecimentos e relação respeitosa com os ciclos da natureza. Por trás de cada prato típico existe um conjunto de saberes construídos ao longo de gerações.
O estudo também chama atenção para os desafios enfrentados pelas comunidades rurais. Segundo Maria das Graças, a falta de políticas públicas de incentivo e de valorização das atividades tradicionais, somada ao crescente afastamento dos jovens dessas práticas, coloca em risco a continuidade de conhecimentos construídos ao longo de gerações. Nesse cenário, ela defende que as políticas educacionais reconheçam esses territórios como espaços de formação humana, fortalecendo uma educação que dialogue com as especificidades culturais da Amazônia.
Para além de ser um espaço de produção, a roça aparece na pesquisa como um território onde se aprende a trabalhar coletivamente, a respeitar o tempo da natureza, a compartilhar experiências e a construir pertencimento. Em um período como o São João, quando a cultura popular celebra suas raízes, reconhecer esses conhecimentos é também valorizar homens e mulheres que mantêm viva uma parte fundamental da história, da cultura e da educação amazônicas.