O casal Carla Cristina Farias, de 30 anos, e Ronivaldo dos Anjos, de 23 anos, em união estável há três anos, esperam o primeiro filho. O bebê deve nascer em novembro, e será o mais novo morador do assentamento federal Ilha Grande, pertencente ao território sul de Belém, capital do Pará. “Ainda não descobrimos o sexo e nem cogitamos nomes. O que sabemos é que nascerá e crescerá rodeado de natureza”, suspira a mãe.
O terreno de dois hectares com açaí nativo e plantio de cacau agora de posse da família em formação, foi desmembrado da casa dos pais de Ronivaldo: o Lote da Cris e do Polaca, no rio Bijogó, a partir do Furo da Paciência, no fluir da Baía do Guajará.
A inclusão dos jovens adultos como beneficiários do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) ante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) foi possível devido ao trabalho presencial e diário do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater): desde o começo do ano, especialistas intensificam uma espécie de recenseamento das novas gerações de ribeirinhos belenenses.
A principal ferramenta é o cadastro nacional da agricultura familiar (caf). Com o caf emitido pela Emater, os assentados tornam-se habilitados ao acesso a quaisquer políticas públicas do segmento da agricultura familiar, como aposentadoria rural, auxílio-maternidade rural, crédito rural e fornecimento de produtos para a merenda escolar.
Sucessão
Sob atuais termos de uso expedidos pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU), os pioneiros da Ilha Grande firmaram-se ali há cerca de 40 anos. Neste momento, os netos desses primeiros ocupantes estão se casando, tendo filhos e assumindo um núcleo cada: na prática, surgem unidades de produção familiar (upfs) de outra titularidade. Só em junho, mais de 30 famílias foram assim reconhecidas, em sistema de mutirão, com o apoio da Associação de Moradores e Produtores Agroextrativistas da Ilha Grande (Ampaig).
“Era como se fosse uma geração de ‘esquecidos’. A juventude ribeirinha dos assentamentos federais de Belém se encontrava em um limbo de invisibilidade em termos de políticas públicas: constituíram novas famílias, até então despercebidas pelo Estado. A Emater é o braço do Governo do Pará que primeiro enxerga essas famílias e informa a existência no contexto da oficialidade. É uma porta sendo aberta para direitos e garantias, na dinâmica da sucessão familiar rural”, aponta o engenheiro agrônomo da Emater Lucival Solin.
Para o presidente da Ampaig, Marcos Cardoso, de 45 anos, mais conhecido como ''Marquinho”, a Emater garante "uma grande ajuda” em um cenário de desafios: “A juventude da Ilha Grande vem com o papel de protagonismo, e o carro-chefe cultural e socioconômico é o açaí. O açaí em si é um negócio muito rentável, mas lidamos com uma cadeia produtiva que ainda carece de muito apoio, no sentido de tecnologia, crédito rural, comercialização. Nós vemos a Emater como um meio-de-campo, uma colaboração imprescindível”, manifesta.
A Associação representa mais de 200 ribeirinhos, com imóveis de quatro hectares, em média. A produção anual estimada de açaí de várzea na Comunidade, via extrativismo, é de mais de 80 toneladas.
Afora o que é destinado para o consumo cotidiano das famílias, os caroços são vendidos in natura nos portos de Belém, com faturamento bruto anual de quase meio milhão de reais.
Histórias
A atuação da Emater nas ilhas de Belém remonta a 2010. De acordo com relatórios institucionais, os sistemas produtivos nas áreas de proteção ambiental (apas) são manejos típicos com inovação agroecológica, sem dependência de conhecimento externo ou de alto nível de insumos.
O engenheiro florestal da Emater Luís Heleno Castro entende que os resultados da Emater visam a “soluções sustentáveis”: “A herança aí, de avô pra pai, de pai pra filho, não é só patrimonial: o legado é de um ecossistema rico e abençoado do estuário amazônico: águas, floresta, fauna. A Emater não só abraça essas histórias: a Emater faz parte delas”, declara.
A história do casal Edilza Rosário, de 51 anos, e Ocimar, de 54 anos, ambos de sobrenome Da Conceição, entrelaça-se com os serviços da Emater: no último 27 de junho, um dos filhos, Ocinaldo, de 30 anos, foi registrado pela equipe extensionista como à frente da sua própria família e com posse exclusiva em terra doada pelos pais.
“Eu me sinto feliz, porque a independência deles é a continuidade da gente, do nosso trabalho, da nossa população”, considera Edilza.
Adelson Reis, de 36 anos, conta do orgulho de labutar de domingo a domingo com o açaí de sua ancestralidade: “É a tradição, uma coisa de raiz, que pra mim é esplendoroso colocar em prática, fazer valer”, relata.
Já Raimundo Nonato Trindade, de 57 anos, destaca a Emater como “o governo que tem presença aqui e que funciona”, em palavras resumidas. Trindade é prole de uma das lideranças femininas mais importantes do Assentamento: Maria Machado, de 85 anos, hoje aposentada da roça.
“Mamãe e minha tia, Maria José, batalharam demais pela nossa coletividade - e sempre receberam a força da Emater. Muitas conquistas se devem à postura e à voz das mulheres da Ilha Grande”, reflete.
Texto de Aline Miranda