Com menos de 100 mil habitantes, a maioria vivendo na zona rural, Feira de Santana ganhou a primeira estação de rádio do interior e a terceira do estado da Bahia. Fruto do idealismo do gráfico Pedro Matos, a Rádio Sociedade foi implantada em 1948 com uma equipe que ouvia as emissoras do Rio de Janeiro, mas soube rapidamente superar as limitadas condições técnicas da época e construir um sólido alicerce para o futuro, que não demorou a chegar. Aqui, um pequeno capítulo dessa história, rememorando nomes e situações que não devem ser esquecidos nem apagados pelo tempo.
“O rádio não atrapalha quem trabalha”. Dito de forma categórica e verdadeira pelo magno comunicador pernambucano/feirense Tanúrio Brito, no seu caleidoscópio diário “Programa da Manhã”, na Rádio Sociedade de Feira, granjeador, com méritos, de alto índice de audiência, extrapolando os limites regionais, requer uma reflexão ou uma análise mais aprofundada sobre o fenômeno imbatível dos meios de comunicação de massa, no que pese o avanço tecnológico, com a oferta de novos e eficientes modais eletrônicos.
Surgido no início do século passado, datado de 1906, com exploração inicial atribuída a Reginald Fessenden, o rádio, na frequência da Onda Média (OM), chegou ao Brasil em 1923, através do pioneiro Roquette Pinto, fundador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
Em 1948, o gráfico Pedro Matos, extremamente idealista e realizador, premiava Feira de Santana com uma emissora homônima, a Rádio Sociedade de Feira, prognosticando aqui o pioneirismo de Roquette Pinto, com a primeira emissora do interior e a terceira do estado, que só contava com a Rádio Sociedade da Bahia e a Rádio Excelsior, ambas em Salvador. A Cidade Princesa, ou o município, já que a maior parte da população feirense era rural, ainda beirando os 100 mil habitantes, ganhava um equipamento ímpar, que teria significativa e indelével participação no seu processo desenvolvimentista.
Na inauguração da emissora, em 7 de setembro de 1948, os primeiros locutores foram Gabriel Castilho, promotor público e ex-locutor da Rádio Sociedade da Bahia, e o feirense Dourival Oliveira.
Sem experiência e apenas conhecendo rádio como ouvintes, foram surgindo os primeiros profissionais locais, basicamente oriundos dos alto-falantes, verdadeira escola de comunicação falada para os jovens propensos a ingressar nessa nova forma de se relacionar com o público de maneira direta e coletiva.
Nesse cenário rememorativo, vale citar que o primeiro narrador esportivo da cidade foi Clarival Souza – Dudinha, tendo como discípulo o irmão Miguel Souza Filho. O artilheiro Quarentinha, que jogava no Ypiranga local, profissionalizou-se no Fluminense de Feira e foi campeão carioca de 1960 pelo América Futebol Clube. A atuação de ambos no esporte foi em alto-falantes. Posteriormente, em 1953, Dudinha trabalhou na Rádio Sociedade e transmitiu o jogo Bahia de Feira 2 x 0 Galícia, na inauguração do estádio Almáchio Alves Boaventura (hoje Alberto Oliveira).
Ronaldo Lupo, cantor romântico de bela voz aveludada e grande sucesso nacional, foi o primeiro artista de renome nacional a se apresentar em Feira de Santana, em show no pequeno auditório do Edifício Capirunga, esquina da Rua Monsenhor Tertuliano Carneiro com a Praça Froes da Mota. Essa apresentação ocorreu em 1950, com grande repercussão pelo seu ineditismo.
As radionovelas, precedentes das novelas da televisão, que as copiaram com a vantagem da imagem, apresentadas por emissoras do Rio, como a Tupi e a Nacional, eram inteligentemente adaptadas por J. Oliveira e levadas ao ar por Edson Matos, os irmãos Raimundo e Dourival Oliveira, Maria José Queiroz, a primeira locutora feirense, e J. Oliveira, dentre outros.
“Jerônimo, o Herói do Sertão”, de enorme audiência no Brasil, apresentado pelo rádio do Rio de Janeiro, na sua versão radiofônica local também garantiu boa audiência. O seriado “Em Cada Vida uma História”, com capítulos diários produzidos e interpretados por J. Oliveira, foi um sucesso.
Espelhado no que se fazia no Rio de Janeiro, nas rádios Tupi, Nacional, Tamoio, Mayrink Veiga e Continental, ouvidas com clareza nesta cidade, a radiofonia local crescia, ganhando experiência.
Inteligente e dotado de capacidade analítica apurada, Pedro Matos, cognominado com justiça o Pai do Rádio Feirense, apresentava o comentário diário “Uma Página Para Você”, uma espécie de plágio de “Boa Noite Para Você”, de Carlos Frias, audiência nacional na Rádio Tupi, às 18 horas. Mas essa similitude não diminuía a importância do que fazia Pedro Matos, com méritos, focado prioritariamente no cenário local e regional, com grande parcela voltada para a política.
A falta de recursos técnicos, obviamente enfrentada pelo cast na dramatização das novelas, era compensada pela dedicação e inteligência da equipe. Assim, o som correspondente à queda de um corpo ou de um objeto, um vidro quebrado, a corrida de um cavalo, a água escorrendo, uma porta sendo aberta, tudo era feito de forma artesanal, com qualidade.
O operador de áudio Júlio Soares, com pouco mais de 14 anos, dava grande contribuição. Nos transmissores estava dona Milu (Maria Amélia Gomes). Outra importante participação foi a oferecida com a chegada do baiano Aristeu Pinto de Queiroz. Cantor, compositor, locutor e violonista, ele contribuiu com a experiência adquirida no Rio de Janeiro, onde trabalhou e gravou um disco com músicas suas, na elaboração de textos e comerciais.
Os noticiosos também tiveram início nessa época, mas se limitavam à leitura de jornais da capital pelo locutor do horário. Não havia a participação de repórteres externos, devido às condições técnicas.
A partir de 1951, com a venda da Rádio Sociedade à Ordem dos Frades Capuchinhos, foi iniciada uma nova etapa, mas essa foi a base do rádio há quase oito décadas na Princesa do Sertão.
Por Zadir Marques Porto
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