O setor de transportes responde por cerca de 30% da demanda global de energia e foi responsável por aproximadamente 10% do crescimento dessa demanda desde 2019, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). É também um dos segmentos em que mais coexistem tecnologias distintas em disputa por espaço na agenda climática global. E é justamente essa disputa que tem alimentado um problema paralelo: a circulação de informações incompletas ou descontextualizadas que distorcem o debate e comprometem decisões estratégicas.
Para Beatriz Rossi Pereira, gerente de Comunicação e Marketing do Instituto MBCBrasil, o problema não está apenas na ausência de dados, mas na forma como o debate público tende a simplificar um tema de alta complexidade técnica. "Comunicar bem não é simplificar. É evitar distorções e qualificar o debate", afirma.
Essa preocupação ganha peso diante de um cenário em que governos, empresas e instituições financeiras direcionam investimentos bilionários para reduzir emissões. Quando o debate público se apoia em percepções parciais, políticas públicas tendem a seguir o mesmo caminho.
No Brasil, o risco é especialmente relevante. Estudo inédito desenvolvido pelo Instituto MBCBrasil em parceria com a LCA Consultoria, intitulado "Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040", mostra que a descarbonização da mobilidade no país passa necessariamente pela combinação de diferentes rotas tecnológicas, como etanol, biodiesel, biometano e eletrificação, com variações conforme a região, o tipo de transporte e o horizonte de implementação. O avanço dessa agenda, aponta o estudo, depende de previsibilidade regulatória, expansão de infraestrutura e coordenação entre setor público e privado.
O país tem características distintas nesse cenário: matriz energética diversificada e trajetória consolidada no uso de biocombustíveis. Mas essas vantagens só se traduzem em resultados concretos se o debate que as antecede for qualificado. Quando comparações simplificadas entre tecnologias dominam a discussão, evidências técnicas ficam em segundo plano.
"Em uma agenda tão complexa quanto a descarbonização da mobilidade, comunicar bem deixou de ser apenas uma questão de visibilidade. Passou a ser parte determinante da própria solução", pontua Beatriz.
A avaliação aponta para um papel crescente de instâncias de articulação capazes de aproximar indústria, academia e formuladores de políticas públicas, transformando dados técnicos em insumos para o debate público. Sem esse esforço, a transição energética deverá avançar mais lentamente do que a urgência climática exige.
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