Com o apoio do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater) em Castanhal, na Região Metropolitana de Belém (RMB), gastrônomos em formação pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) estão experimentando novos desempenhos da famosa “crueira”. Em grande volume, característico do processo de produção de farinha, a massa fibrosa da mandioca que sobra na peneira muitas vezes é descartada, sem qualquer serventia.
Neste mês, pelo menos 60 quilos de crueira foram doados por agricultores familiares atendidos há mais de uma década pela Emater no Distrito do Apeú, em Castanhal, à turma do primeiro ano de Graduação em Gastronomia, do campus da capital Belém.
A coleta realizou-se durante visita técnica de sete alunos, no último 18 de junho, a duas agroindústrias da agrovila Santa Terezinha, no Ramal do Pacuquara. As possibilidades inventivas de pratos com crueira já vêm sendo didaticamente pré-testadas em versões amazônicas de “vol-au-vent”, uma espécie de pasta folhada francesa, ou como ingrediente para empanar petiscos fritos.
“Criatividade é uma ferramenta imprescindível da Gastronomia”, diz a estudante de Gastronomia Maria Luz Aviz, de 52 anos, que participou da ação.
Moradora do bairro do Marco, em Belém, a também advogada estuda Gastronomia com um objetivo cooperativo: mobilizar, reunir e multiplicar técnicas entre mulheres da comunidade Santa Maria do Guarimã, em Vigia de Nazaré, na região do Guamá, onde mantém o sítio Luz de Maria. Mais qualificadas, as mulheres melhoram a renda e fortalecem a cidadania.
O sítio, na Estrada de Porto Salvo, no Km 2 da rodovia PA-142, funciona como ponto de encontro e capacitação sobre produtos tais quais pescado característico, com destaque para gurijuba, e plantas alimentícias não-convencionais (pancs), com destaque para cariru.
“Foi valioso participar desse momento com a Emater, porque eu sempre cultivei muito interesse nos insumos da terra, no âmbito de sustentabilidade ambiental. Uma das coisas que vi nas agroindústrias de Castanhal foi usarem caroço de açaí e refugo de dendê como combustível dos fornos das casas-de-farinha. Deixam de desmatar e queimar madeira pra reciclar”, relata.
Evento
Organizada pelo tecnólogo em alimentos da Emater Marcelo Costa, especialista em Gestão de Produção e mestre em Empreendimentos Agroalimentares, e pela professora da Uepa Elen Vanessa Silva, tecnóloga agroindustrial especialista em Apicultura, especialista em Gastronomia, especialista em Nutrição do Esporte e pós-doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos, a visita técnica percorreu duas propriedades.
Na de Eládio Dias, de 57 anos, o carro-chefe é a “farinha de macaxeira”: são mais de três toneladas e meia por semana. Já com Evandro Morais, de 47 anos, sob a marca Sabor Rural, por semana são duas toneladas de farinha de tapioca e duas toneladas de goma de tapioca.
De acordo com Costa, o projeto da Emater de Castanhal que engaja universitários dos cursos de Gastronomia e Tecnologia de Alimentos da Uepa na vivência explícita do meio rural deve se estender, nos próximos meses, a outras cadeias produtivas além da mandioca: serão incluídos empreendimentos de chocolate nativo e polpas de frutas, como açaí, bacuri e cupuaçu.
“A ideia é conectar não só cidade e campo, mas conhecimento popular com as atualizações do conhecimento científico, no contexto de agroindustrialização e consumo comercial. Quando integramos duas pontas, a lavoura e a cozinha, também incentivamos o aproveitamento integral dos alimentos, como é este caso da mandioca, no evitar desperdício e na promoção de segurança alimentar e nutricional. As visitas técnicas servem, ainda, de divulgação: dão visibilidade aos protagonistas da tão propagada e diferenciada ‘culinária paraense’: os fornecedores - autênticos representantes e mantenedores das tradições ”, afirma.
Texto: Aline Miranda
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