Celebrado mundialmente em junho, o Dia Internacional do Leite chama atenção para a importância de uma das principais atividades da agropecuária e da agricultura familiar. Além de contribuir para a segurança alimentar e nutricional da população, a cadeia leiteira movimenta economias locais, gera empregos e garante renda para milhões de famílias em todo o mundo.
Atualmente, mais de 6 bilhões de pessoas consomem leite e derivados, enquanto cerca de 150 milhões de famílias produtoras estão ligadas à atividade. Produtos como queijo, manteiga, iogurte, creme e outros derivados fazem parte da alimentação diária de diferentes culturas e representam uma importante fonte de nutrientes.
Em Rondônia, a pecuária leiteira ocupa posição estratégica no desenvolvimento econômico e social. Presente em praticamente todos os municípios, a atividade é uma das principais fontes de renda da agricultura familiar e movimenta uma cadeia formada por produtores rurais, cooperativas, laticínios, transportadores, comerciantes, agroindústrias e fornecedores de insumos.
Segundo dados da Embrapa e da Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril do Estado de Rondônia (Idaron), Rondônia lidera a produção de leite na Região Norte e está entre os dez maiores produtores do país. A atividade possui destaque em municípios como Machadinho do Oeste, Jaru, Porto Velho, Nova Mamoré e Ouro Preto do Oeste.
Apesar da relevância econômica, o setor enfrenta desafios que comprometem a sustentabilidade da atividade, como os elevados custos de produção, a oscilação dos preços pagos ao produtor, a concorrência com produtos importados, além das dificuldades de acesso ao crédito, tecnologia e assistência técnica.
Dados apresentados durante debates realizados pela Assembleia Legislativa apontam que, embora a produção leiteira tenha registrado crescimento nos últimos anos, muitos produtores ainda convivem com baixa rentabilidade devido ao aumento dos custos e à dificuldade de valorização do produto.
Alero amplia diálogo e articula ações para fortalecer a cadeia produtiva do leite
Diante dos desafios enfrentados pelos produtores, a Assembleia Legislativa de Rondônia (Alero) tem ampliado o debate com representantes da cadeia produtiva, buscando construir alternativas para fortalecer o setor e garantir melhores condições de produção e comercialização.
Em dezembro de 2025, a Casa de Leis realizou audiência pública em Ariquemes para discutir a crise enfrentada pela atividade leiteira. O encontro reuniu produtores rurais, representantes de entidades do setor, técnicos, parlamentares estaduais e federais, além de integrantes do Governo do Estado.
Durante a audiência, foram apresentados problemas relacionados ao aumento dos custos de produção, redução da rentabilidade, dificuldades na comercialização, falta de previsibilidade nos pagamentos e impactos da concorrência com produtos importados.
No dia seguinte a audiência, a Alero aprovou o Projeto de Lei 1197/25, que estabelece a proibição, em todo o território estadual, da reconstituição de leite em pó e de outros derivados lácteos de origem importada destinados ao consumo alimentar humano.
Como resultado dos debates, foram apresentados encaminhamentos como a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Cadeia Produtiva do Leite, além da discussão sobre medidas legislativas e políticas públicas voltadas ao fortalecimento da atividade.
CPI aprofunda diagnóstico da cadeia produtiva do leite
Instalada em março de 2026, por meio do Ato P nº 029/2026-LEG/ALE, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Cadeia Produtiva do Leite tem como objetivo investigar os fatores que contribuem para as dificuldades enfrentadas pelos produtores e propor medidas para recuperação e fortalecimento do setor.
Presidida pela deputada estadual Cláudia de Jesus (PT), a comissão conta ainda com o deputado Delegado Camargo (Podemos), como vice-presidente; deputado Eyder Brasil (PSD), relator; e os deputados Dra. Taíssa (PL) e Pedro Fernandes (PRD), como membros.
A CPI realizou audiências itinerantes em municípios estratégicos da produção leiteira, como Alvorada do Oeste, Machadinho do Oeste, Jaru, Ji-Paraná e Nova Mamoré, ouvindo produtores, sindicatos, cooperativas, representantes da Emater e demais integrantes da cadeia produtiva.
Entre os principais pontos levantados estão a baixa remuneração pelo litro do leite, aumento dos custos de produção, ausência de contratos formais entre produtores e indústrias, dificuldades de comercialização e necessidade de ampliar a assistência técnica.
A comissão também analisa questões relacionadas à formação dos preços, incentivos fiscais, entrada de leite de outros estados e possíveis desequilíbrios na relação comercial entre produtores e indústrias.
Concluída a primeira etapa de escutas com produtores rurais, a CPI está iniciando oitivas que prevê ouvir representantes das entidades ligadas à cadeia produtiva do leite, marcada para 24 de junho de 2026. Na sequência, serão ouvidos representantes da indústria de laticínios e de órgãos governamentais, ampliando a coleta de informações que subsidiarão o relatório final da comissão.
A presidente da comissão, deputada Cláudia de Jesus (PT), entende que a crise da cadeia produtiva do leite está relacionada a três fatores centrais: o baixo preço pago aos produtores, os indícios de concentração de mercado apontados durante as oitivas e a ausência de políticas públicas permanentes para o setor.
Segundo a parlamentar, os encaminhamentos da CPI serão consolidados no relatório final, que deverá apresentar recomendações, propostas legislativas e medidas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do leite e da atividade leiteira em Rondônia.
Faperon destaca importância econômica e defende investimentos
Para o presidente do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia (Faperon) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-RO), Hélio Dias de Souza, a cadeia do leite é uma das atividades que mais distribuem renda no estado.
Segundo ele, a produção leiteira funciona como uma “cadeia do contracheque”, por garantir renda periódica aos produtores e movimentar diversos setores da economia. Rondônia possui um parque industrial com capacidade para processar cerca de 4 milhões de litros de leite por dia, enquanto a produção atual está estimada em aproximadamente 1,5 milhão de litros diários.
Para ampliar a produção, Hélio Dias defende investimentos em tecnologia, melhoramento genético, assistência técnica e políticas públicas que garantam segurança aos produtores.
Segundo ele, a melhoria genética do rebanho é um dos principais desafios, já que grande parte dos animais apresenta baixa produtividade. O dirigente destaca ainda a necessidade de ampliar práticas como manejo adequado das pastagens, produção de silagem, pastejo rotacionado e acompanhamento técnico especializado.
Hélio Dias também defende a construção de um plano de desenvolvimento para a cadeia leiteira de Rondônia, com ações de longo prazo que permitam aumentar a produtividade, reduzir custos e garantir maior competitividade aos produtores.
“É preciso construir uma política de Estado para a cadeia do leite, com participação de todos os segmentos envolvidos. Com planejamento, assistência técnica e investimento em tecnologia, é possível superar os desafios e fortalecer uma atividade que tem grande importância econômica e social para Rondônia”, destacou o presidente da Faperon.
Fetagro defende políticas permanentes e alerta para o aumento dos custos de produção
O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro), Manoel Carlos Dantas, o Carlinhos Dantas, destaca que a produção leiteira representa uma importante fonte de renda para a agricultura familiar.
Segundo ele, mesmo quando não é a principal atividade econômica da propriedade, o leite garante previsibilidade financeira às famílias rurais por proporcionar renda mensal.
Apesar da relevância econômica e social da atividade, Carlinhos Dantas avalia que a cadeia produtiva enfrenta um momento delicado. De acordo com o dirigente, os custos de produção aumentaram significativamente nos últimos anos, enquanto os preços pagos aos produtores não acompanham essa elevação.
“Em muitos casos, o produtor consegue apenas cobrir os custos operacionais e a própria mão de obra. Quando se leva em consideração toda a estrutura da propriedade e os investimentos realizados, percebe-se que muitos estão trabalhando com prejuízo”, afirmou o presidente.
Entre os desafios apontados pelo dirigente da Fetagro, estão o aumento dos custos de produção, a falta de políticas públicas específicas, dificuldades de negociação com laticínios e necessidade de ampliar o acesso à assistência técnica.
Ele defende ainda a criação de mecanismos de apoio ao setor, como linhas de crédito específicas, fundo garantidor, fortalecimento da assistência técnica e incentivo à instalação de pequenas agroindústrias familiares para agregação de valor à produção.
Ao projetar o futuro da atividade, Carlinhos Dantas faz um alerta. Segundo ele, sem ações estruturantes e políticas públicas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva, a tendência é de continuidade da redução do número de produtores e da concentração da produção em um grupo cada vez menor de propriedades.
“Temos produtores que investiram em tecnologia e conseguiram aumentar sua produtividade, mas, se os problemas estruturais não forem enfrentados, a tendência é que cada vez menos famílias permaneçam na atividade leiteira em Rondônia”, concluiu.
Mais 60% dos agricultores familiares atuam na atividade leiteira, afirma dirigente da Emater
O presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Rondônia (Emater-RO), Hermes José Dias Filho, destaca que a atividade leiteira acompanha o desenvolvimento econômico do estado desde a década de 1980 e atualmente representa um dos principais segmentos do agronegócio rondoniense.
Segundo a Emater, Rondônia possui mais de 100 mil propriedades rurais, sendo que mais de 60% dos agricultores familiares desenvolvem a atividade leiteira como fonte significativa de renda.
Hermes José ressalta que a tecnologia tem papel fundamental para aumentar a produtividade e garantir sustentabilidade econômica às propriedades. Entre as ferramentas estão o melhoramento genético, manejo adequado das pastagens, irrigação, pastejo rotacionado, estrutura de ordenha e controle sanitário.
O presidente da Emater também destaca ações do Governo de Rondônia voltadas ao setor, como o Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira do Estado de Rondônia (Pró-Leite), que tem como objetivo fortalecer a cadeia produtiva por meio do incentivo à modernização das propriedades, ampliação da produção, melhoria da qualidade do leite e aumento da competitividade do setor, e o Programa de Consultoria Técnica e Gerencial para Produtor Rural da Pecuária Leiteira (Consultec), executado pela Emater em todos os municípios.
“Quando a tecnologia é aplicada de acordo com a realidade de cada propriedade, ela torna a atividade mais produtiva, sustentável e economicamente viável. Por isso, o apoio do Estado e o acesso à assistência técnica são fundamentais para o desenvolvimento da pecuária leiteira em Rondônia”, afirmou Hermes José Dias Filho.
Texto: Júlio Aires I Jornalista I Secom ALE/RO
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