Concluir as etapas iniciais do tratamento do câncer de mama não significa encerrar a jornada de cuidado com a doença. Mesmo após cirurgia, quimioterapia e radioterapia, muitas mulheres ainda enfrentam impactos físicos, emocionais e sociais, enquanto retomam gradualmente a rotina, os planos pessoais e a qualidade de vida.
Essa realidade ganha relevância porque o risco de recidiva no câncer de mama precoce (estágios II e III) pode persistir por décadas e atingir níveis substanciais, especialmente em pacientes com características de maior risco. No subtipo RH+/HER2- (também conhecido como câncer de mama luminal), o mais comum entre os casos da doença, o cenário é ainda mais impactante, já que parte das pacientes é considerada de alto risco para recidiva. Nesses casos, a probabilidade de retorno da doença pode variar aproximadamente entre 20% e mais de 40%, dependendo de fatores clínico-patológicos. Esses dados reforçam a importância da avaliação individualizada das possibilidades terapêuticas ao longo da jornada de cuidado.
"Existe um momento em que a paciente já superou a etapa mais intensa do tratamento, mas ainda precisa lidar com decisões importantes relacionadas ao seguimento clínico e à manutenção do cuidado. É justamente nesse período que o acompanhamento estruturado, a qualidade de vida e o olhar para o risco de recidiva se tornam centrais", afirma a oncologista Renata Arakelian (CRM 107746 SP).
Ao longo dos últimos anos, o avanço do conhecimento científico sobre o risco de recidiva ampliou a compreensão sobre a importância do tratamento adjuvante e do seguimento contínuo em pacientes com câncer de mama precoce RH+/HER2- de alto risco. Entre essas estratégias estão abordagens utilizadas de forma complementar ao tratamento endócrino em pacientes elegíveis, sempre com base em avaliação clínica individualizada.
A experiência da gestora de recursos humanos, Adilene Mendes Bessa, diagnosticada com câncer de mama luminal aos 35 anos, ajuda a traduzir os desafios dessa etapa. Após alcançar a remissão da doença, ela seguiu em acompanhamento médico e iniciou tratamento adjuvante para reduzir o risco de recidiva. Segundo ela, esse período trouxe uma nova perspectiva sobre o cuidado contínuo e a importância do acesso à informação e ao acompanhamento especializado.
"Quando tudo isso termina, a gente quer voltar a viver normalmente, fazer planos e recuperar a rotina. Hoje eu trabalho, faço academia, viajo e sigo minha vida normalmente. Ter acompanhamento adequado fez diferença para que eu pudesse olhar para o futuro com mais tranquilidade", relata.
Adilene também destaca que reconhece o privilégio de ter conseguido acesso a acompanhamento especializado e às opções terapêuticas indicadas para o seu caso. "Eu sei que tive acesso a uma estrutura que não representa a realidade da maioria das mulheres. Isso mostra como ainda existem desigualdades importantes na jornada do câncer de mama", acentua.
Nesse contexto, o cuidado contínuo no câncer de mama precoce vai além do acompanhamento clínico individual e se conecta a um desafio mais amplo de saúde pública. Fortalecer o acesso à informação qualificada, reduzir desigualdades regionais e ampliar a discussão sobre políticas públicas que garantam acompanhamento adequado ao longo do tempo são passos importantes para que mais pacientes possam participar de forma mais ativa das decisões relacionadas à saúde e qualidade de vida, especialmente diante das desigualdades de acesso ao cuidado especializado.
"Hoje, o desafio não é apenas tratar o câncer de mama precoce, mas também apoiar a retomada da vida após o tratamento inicial. Nesse contexto, o cuidado passou a incorporar estratégias adjuvantes mais recentes, como terapias‑alvo, entre elas os inibidores de ciclina, que têm como objetivo reduzir as chances de o câncer voltar ao longo do tempo. Isso envolve garantir que o cuidado continue de forma integrada, com acesso, informação e estratégias individualizadas ao longo da jornada", conclui a oncologista.
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