A história de Salomé, uma égua que chegou a ser considerada imbatível nas pistas de corrida da região, com a marca de 500 metros em 29 segundos, teve foco mesmo no município de Baixa Grande, mas como esse veloz animal teria corrido em Feira de Santana e o fato é interessante, vale, de algum modo, incluí-la entre os relatos do passado não muito distante da Princesa do Sertão.
“Terra das Boiadas”, como já foi chamada, Feira de Santana também já teve uma boa presença no hipismo, como um entretenimento natural diretamente ligado à sua origem campestre. Corridas de cavalos eram feitas aos domingos no prado, ou corredor, como eram chamadas na época as pistas de corrida, praticamente improvisadas, uma vez que não obedeciam às regras observadas nos hipódromos em competições regidas oficialmente. O prado da Princesa, segundo relatos, tinha início no ABC (Avenida Sampaio) em direção ao Ponto Central, depois teria sido ampliado desse local no sentido leste, por conta do rápido desenvolvimento urbano, absorvedor de espaço físico.
No prado da cidade teria corrido a égua Salomé que, já próximo ao final da década de 1960, tornou-se uma espécie de lenda na região a partir de Baixa Grande. Alazã (cor de fogo), o animal comprado pelo rico fazendeiro Bianô Pomponet, liderança política naquela parte do estado, foi três vezes prefeito de Baixa Grande. Em pouco tempo ganhou fama pela sua velocidade, superando todas as contendas e, desse modo, era considerada sem adversária no interior baiano. As corridas geravam muitas apostas, aumentando os recursos financeiros de muitos apostadores e “quebrando” outros tantos.
Onde surgia um desafio, Salomé era levada já com a certeza da vitória. Os apostadores ganhavam bom dinheiro preferindo-a. Mesmo já sem ter com quem competir, Salomé era regiamente tratada e só saía da cocheira com o jóquei Vitor para os treinos necessários. Determinado dia, o fazendeiro, dono do animal, foi visitado por dois cidadãos oriundos de Pernambuco que, sabedores da fama da égua, fizeram um desafio. Eles trariam até Baixa Grande a égua Preta, assim batizada devido à cor do seu lustroso pelo.
Durante 30 dias, Preta ficou alojada em local adequado, tendo acesso apenas seu tratador, o jóquei e seus proprietários. Os treinos eram fechados, conquanto membros da equipe adversária (equipe de Salomé) tudo fizessem para “violar” essa privacidade. “Salomé fazia 500 metros em 29 segundos; nós queríamos ‘roubar o tempo’ da égua Preta. Eu mesmo fiquei escondido com um cronômetro na mão, mas cochilei”, relata o cordelista Jurivaldo Alves, que viveu a história, por ele mesmo relatada.
Cercada de enorme expectativa, chegou o dia da corrida, que era mais chamada de contenda, com a presença de um público enorme. Fazendeiros, apostadores, vaqueiros, autoridades e o público em geral tomaram lugar no prado, hoje uma bela avenida na cidade de Baixa Grande. “Tinha caravanas de Ipirá, Itaberaba, Morro do Chapéu, de várias outras cidades e pessoas adeptas das corridas de outras regiões, inclusive de Feira de Santana e Salvador”, lembra Jurivaldo. As apostas foram altas, a maioria na égua Salomé, cita o cordelista, ressaltando que um tio dele, Evaristo de Ursulino, teve enorme prejuízo. “Ele não gostava muito de trabalho, fazia muitas apostas e, nesse dia, apostou todo o dinheiro disponível e mais 30 animais, a maioria vacas leiteiras da raça Holandesa. Perdeu tudo”.
A perda também não foi maior para o proprietário de Salomé e outros apostadores, conforme o cordelista, devido à atitude correta e inesperada de um dos criadores pernambucanos, que foi até Pomponet e o aconselhou a não fazer novas apostas. “Salomé faz 500 metros em 29 segundos. Preta faz 500 metros em 27 segundos e vai ganhar com 30 metros de frente. A diferença não vai ser maior porque já orientei Pedrinho (o jóquei) a ‘prender’ a corrida (reduzir a velocidade do animal), para evitar que o senhor passe vergonha”, disse o criador pernambucano e concluiu: “Conheço bem Salomé e Preta, elas são irmãs!”.
O resultado da corrida foi o previsto e anunciado pelo dono de Preta, para o desespero da maioria dos apostadores e alegria de alguns vencedores. Houve muito dinheiro em jogo e um final que permanece na memória de muitos até hoje.
Por Zadir Marques Porto
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